top of page
banners para site.png

O que é Umbanda?


A Umbanda é uma religião marcada pelo sincretismo (resultado de encontros profundos entre tradições africanas, indígenas e espiritistas e católicas. Para compreender a sua origem, é preciso recuar vários séculos. Desde os séculos XVII a XIX, nas comunidades afro-brasileiras surgem práticas como o calundu, ritual de cura, adivinhação e culto aos ancestrais, cometido em rodas de batuque. 
Derivadas dessas tradições, desenvolvem-se outras vertentes, como a cabula, presente sobretudo entre os povos malês de origem africana, e a macumba carioca, termo popular que designava cultos afro-brasileiros entre os habitantes urbanos do Rio de Janeiro.
Esses cultos eram, muitas vezes, reprimidos ou marginalizados, mas constituíam o leito cultural a partir do qual a Umbanda emergiria.
No início do século XX, surge uma figura determinante para a institucionalização desse sincretismo: Zélio Fernandino de Moraes. Nascido em 10 de abril de 1891 (ou 1892, de acordo com algumas fontes) em São Gonçalo (RJ), Zélio era médium e enfrentou graves episódios de paralisia que a medicina da época não conseguiu explicar. 
Em 15 de novembro de 1908, aos 17 anos, ele participa de uma sessão espírita na Federação Espírita de Niterói. Segundo a tradição, nessa sessão incorporou uma entidade que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas.
Esse espírito afirmou que “fundaria” um novo culto se não houvesse espaço para espíritos de negros e indígenas nos centros espíritas existentes, e proferiu uma frase simbólica: “Para mim não haverá caminhos fechados.” 

No dia 16 de novembro de 1908, fundou-se a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em Neves (São Gonçalo, RJ), sob a orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas por intermédio de Zélio. 
Essa tenda é considerada por muitos como a primeira casa de Umbanda organizada, um espaço de acolhimento espiritual aberto a todas as pessoas. Sem distinção social, racial ou econômica. 
Na Umbanda nascente, as incorporações não se limitavam a um tipo de espírito: caboclos, pretos-velhos, crianças, e outras entidades espirituais atuavam para prestar auxílio, aconselhamento e cura. 
Consolidação e Organização
Com o crescimento da Umbanda, Zélio, guiado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, fundou outras tendas a partir de 1918, espalhando a nova religião por várias regiões.
Em 1939, foi criada a primeira entidade organizadora: a Federação Espírita de Umbanda, que mais tarde tornou-se a União Espiritista de Umbanda do Brasil, para congregar terreiros e estruturar doutrinariamente a religião. 
Dois anos depois, em 1941, realizou-se o 1.º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, evento simbólico para a codificação de práticas, trocas entre dirigentes e consolidação de identidade. 
Além disso, Zélio fundou a Cabana de Pai Antônio, em Cachoeiras de Macacu (RJ), que se tornou um local importante para a Umbanda, mantendo-se ligada à Tenda original. 
Princípios e Filosofia
Desde a sua origem, a Umbanda se define por valores centrais como a caridade, a ética espiritual e o atendimento gratuito aos consulentes. 
O sincretismo é uma marca essencial: nas tendas, encontram-se influências do espiritismo kardecista, do catolicismo popular (a imagem de Nossa Senhora da Piedade, por exemplo, dialoga simbolicamente com os Orixás) e das cosmologias africanas e indígenas. 
As cerimónias umbandistas envolvem giras (sessões de incorporação), passes, defumações, obrigações, cânticos e oferendas.
As entidades espirituais são variadas: caboclos (ancestrais indígenas), pretos-velhos (ancestrais africanos), crianças e outras linhas hierárquicas de guias atuam nos trabalhos mediúnicos.

A Umbanda não nasceu num vácuo: há discussões académicas sobre o que realmente ocorreu em 1908. Para alguns historiadores, a data de 15 de novembro é mais simbólica do que criativa: representa um mito de origem que consolida a identidade da Umbanda, mas o movimento religioso já tinha raízes em práticas anteriores. 
Há também críticas sobre processos de “embranquecimento” da Umbanda institucional: segundo alguns estudiosos, para ganhar legitimidade social, algumas correntes reduziram ou marginalizaram certos elementos afro-indígenas (como atabaques, entidades “pesadas”) e privilegiaram uma estética mais palatável para a sociedade da época. 

A Umbanda cresceu significativamente ao longo do século XX, adaptando-se a contextos urbanos e sociais diversos, e hoje é praticada em milhões de terreiros no Brasil e também fora dele.
O papel de Zélio de Moraes permanece central: ele é visto como o médium fundador e como mensageiro do Caboclo das Sete Encruzilhadas até à sua morte, em 3 de outubro de 1975. 
A Tenda Nossa Senhora da Piedade e a Cabana de Pai Antônio ainda funcionam e são referências históricas para muitos praticantes.



Umbanda VS Candomblé
principais diferenças
 



A Umbanda e o Candomblé são duas das religiões afro-brasileiras mais conhecidas. E é comum haver confusões entre as duas. Qual a diferença entre cada uma? Apesar de partilharem raízes africanas comuns, apresentam diferenças importantes em doutrina, ritualística, estrutura e propósito. Abaixo, apresentamos um comparativo detalhado para esclarecer as distinções.


1. Origem e Influências:
 
Candomblé
Tem origem direta nas tradições africanas, especialmente de povos iorubás, fon e bantos, trazidas para o Brasil pelos africanos escravizados. 
A sua prática é marcada por uma forte ligação aos Orixás, divindades ancestrais que representam forças da natureza e elementos da vida. 
 

Umbanda
Nasce no Brasil, no início do século XX, como um fenómeno sincrético. 
Combina elementos do espiritismo kardecista, do catolicismo, de tradições indígenas e afro-brasileiras. 
Esse sincretismo torna a Umbanda uma religião bastante flexível e adaptável. 

 

2. Natureza das Entidades Espirituais
 

Candomblé
Cultua principalmente os Orixás, entidades divinas africanas. 
Os praticantes podem sofrer possessão pelos seus Orixás, num transe que reflete uma conexão muito direta com a divindade. 
 

Umbanda
Além dos Orixás, emprega uma grande variedade de entidades espirituais mediadoras das linhas ou falanges: caboclos, pretos-velhos, crianças, exus, entre outros.
A incorporação na Umbanda ocorre frequentemente por essas entidades intermediárias, e não diretamente pelos Orixás. 

 

3. Rituais, Possessão e Música
 

Candomblé
Os rituais envolvem dança, música (com atabaques), cânticos nas línguas africanas (yorubá, bantu, etc.) e oferendas tradicionais. 
Os sacrifícios de animais são comuns em certos terreiros, como parte simbólica e ritual de agradecimento. 
A hierarquia nos terreiros é rigorosa: existem líderes iniciados (babalorixás, ialorixás) com longos períodos de preparação.
 

Umbanda
As sessões (ou “giras”) são geralmente mais simples e têm foco na caridade, no aconselhamento espiritual, nos passes e na limpeza energética. 
O uso de linguagem é predominantemente em português, e os cânticos são mais acessíveis, sem necessidade de línguas africanas. 
Não há, em regra, sacrifício animal nos rituais umbandistas. 

 

4. Ética, Valores e Finalidade
 

Candomblé
Valoriza a tradição ancestral, a fidelidade aos Orixás e o respeito rigoroso pelas normas do terreiro. 
A iniciação no Candomblé é profunda: envolve aprendizagem, purificação, recolhimento e compromisso espiritual. 
 

Umbanda
Tem forte ênfase na caridade, na evolução espiritual e no apoio prático das entidades aos seguidores. 
A estrutura é mais flexível, sem exigir iniciações longas ou regras tão estritas para médios. 

 

5. Material Litúrgico e Alimentação
 

Candomblé
Os terreiros mantêm “assentamentos”, objetos sagrados que abrigam a energia (axé) dos Orixás. 
Cada Orixá tem alimentos e restrições específicas, e as oferendas alimentares (“comidas de santo”) são preparadas com rigor. 
 

Umbanda
Utiliza elementos simbólicos como velas, ervas, guias (colares), e a “pemba” (giz ritual) para traçar pontos riscados ou proteger energias. 
As oferendas são mais simples: frutas, doces, bebidas, conforme a vibração da entidade que vai trabalhar.

 

6. Linguagem e Tradição Oral

Tanto no Candomblé como na Umbanda, o conhecimento é passado oralmente; não há textos sagrados fixos, e a tradição vive através das gerações, dos mais velhos para os mais novos. 
No Candomblé, os cânticos mantêm línguas africanas como forma de preservar o vínculo com as origens. 
Na Umbanda, a comunicação é mais imediata em português, facilitando a inclusão e a participação dos fiéis comuns. 


7. Estrutura Religiosa
 

  • Candomblé
    Muito hierárquico, com sacerdotes (babalorixás, ialorixás) que lideram rituais e gerem a comunidade. 
    Iniciações são longas e exigem compromisso profundo. 
     

  • Umbanda
    A liderança pode ser mais fluida: médiuns, pais/mães de santo dirigem tendas ou centros. 
    É comum oferecer atendimento espiritual a quem chega, sem necessidade de iniciação formal para cada pessoa que procura ajuda.
     

  • A Umbanda é uma religião sincrética e adaptável, voltada para a caridade, a orientação espiritual mediada por entidades, e com rituais mais acessíveis.
     

  • O Candomblé, por sua vez, preserva fortemente a tradição africana ancestral, com culto direto aos Orixás, rituais mais estruturados e um compromisso espiritual profundo e ritualizado.
     

Essas diferenças não significam que uma é “melhor” que a outra, refletem caminhos distintos de conexão espiritual e cultural, cada uma com a sua beleza, força simbólica e papel na identidade afro-brasileira.

bottom of page